A Lenda da Forja
Antes que os homens aprendessem a moldar o ferro, antes que os Horadrim
dominassem os segredos das runas e muito antes de os ferreiros de Sanctuary
aprenderem a transformar uma simples lâmina em uma arma digna de um herói, existia
uma forja que não pertencia a homem algum.
Seu fogo não vinha de lenha.
Seu martelo não havia sido feito por mãos mortais.
E sua chama jamais se apagava.
Os registros mais antigos sobre ela foram encontrados em fragmentos de pergaminhos
Horádricos, escritos por estudiosos que aparentemente descobriram o segredo por
acaso. Segundo esses relatos, a forja teria surgido durante uma das primeiras
grandes batalhas do Conflito Eterno, quando anjos e demônios travaram
combate sobre Sanctuary.
As armas usadas naquela guerra eram diferentes de tudo que os mortais conheciam.
Espadas carregavam fragmentos de essência angelical. Armaduras eram temperadas em
sangue demoníaco. Runas eram gravadas diretamente no metal enquanto ele ainda
estava quente, tornando o equipamento capaz de suportar poderes que destruiriam
qualquer arma comum.
Mas havia um problema.
As armas eram poderosas demais para permanecerem inteiras.
Quando um poderoso artefato era destruído, sua essência não desaparecia. Permanecia
presa ao metal, como uma memória esperando para ser despertada novamente.
Foi então que anjos e demônios, apesar de inimigos, descobriram algo que nenhum dos
dois lados conseguia fazer sozinho.
O fogo dos Céus podia purificar a essência.
O fogo dos Infernos podia corrompê-la.
E entre os dois nasceu uma terceira chama.
Uma chama capaz de transformar.
Essa chama foi colocada dentro de uma única forja.
Seu nome original se perdeu com o passar das eras.
Os Horadrim passaram a chamá-la simplesmente de Forja Eterna.
A Forja não criava poder do nada.
Ela despertava aquilo que já estava adormecido dentro de um equipamento.
Uma espada quebrada poderia recuperar a força que possuía quando foi criada. Uma
armadura aparentemente comum poderia revelar propriedades escondidas em suas ligas.
Uma arma antiga poderia receber uma nova essência e tornar-se algo que jamais
poderia ter sido produzido por um ferreiro mortal.
Mas havia uma condição.
Toda transformação exigia um preço.
Para alterar um item, era necessário oferecer à chama algo que possuísse poder
suficiente para alimentar o processo.
Metais raros.
Runas.
Essências.
Fragmentos de criaturas.
E, em casos extremos, partes de artefatos que jamais deveriam ter sido
tocados.
Os Horadrim descobriram que quanto maior o poder do material oferecido à Forja,
maior era aquilo que ela conseguia despertar.
Foi assim que os primeiros grandes ferreiros de Sanctuary nasceram.
Eles não conheciam toda a verdade sobre a Forja. Conheciam apenas fragmentos do
ritual. Aprenderam a controlar o fogo, a temperatura e o golpe do martelo.
Aprenderam quais materiais poderiam ser combinados e quais jamais deveriam ser
colocados juntos.
Com o passar das gerações, o segredo foi simplificado.
O conhecimento que antes exigia Horadrim e artefatos celestiais passou
de mestre para aprendiz.
E a Forja Eterna deixou de ser uma lenda.
Seu poder passou a existir nas mãos dos ferreiros de Sanctuary.
Entretanto, existe uma parte da história que os Horadrim deliberadamente esconderam.
Durante a investigação sobre a origem da Forja, um antigo Horadrim encontrou
registros que relacionavam sua chama a uma presença muito mais antiga do que os
próprios exércitos dos Céus e dos Infernos.
Uma presença que não pertencia a nenhum dos dois lados.
Uma presença chamada apenas de Omega.
Os registros afirmavam que, muito antes de ser aprisionado, Omega havia compreendido
algo que anjos e demônios demoraram eras para descobrir:
a verdadeira força não estava na Luz ou nas Trevas, mas naquilo que poderia
dominar ambas.
Diz-se que, durante a batalha que terminou com seu aprisionamento, Omega carregava
consigo uma arma forjada utilizando a mesma chama que posteriormente seria conhecida
como Forja Eterna.
Quando os exércitos celestiais e infernais finalmente dividiram sua essência em
quatro partes, parte daquele poder desapareceu.
Ou assim acreditaram.
Os fragmentos foram espalhados.
Alguns foram destruídos.
Outros foram escondidos.
E alguns acabaram incorporados às próprias tradições dos ferreiros de
Sanctuary.
É por isso que nenhum ferreiro consegue explicar completamente o que acontece quando
um equipamento é colocado sobre a bigorna.
Eles apenas conhecem o ritual.
Colocam o item.
Acrescentam os materiais necessários.
Acendem a chama.
E então golpeiam.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Até que o metal comece a responder.
Alguns dizem que, durante esses instantes, é possível ouvir vozes dentro do fogo.
Vozes de anjos.
Vozes de demônios.
E, às vezes, uma quarta voz.
Mais baixa.
Mais antiga.
Uma voz que não pede.
Não ameaça.
Apenas observa.
Os poucos Horadrim que descobriram a verdade deixaram uma última advertência:
“Não existe metal forte o suficiente para resistir à Forja. Não existe essência
poderosa demais para ser transformada. E não existe ferreiro que possa afirmar
conhecer aquilo que responde ao outro lado da chama.”
Pois a Forja não concede poder.
Ela revela o poder que já estava escondido.
E cada golpe do martelo desperta um pouco mais daquilo que permaneceu adormecido
desde a época em que anjos e demônios ainda lutavam lado a lado contra uma ameaça
que nenhum dos dois exércitos conseguiu destruir.
Talvez seja por isso que os maiores ferreiros de Sanctuary jamais
tenham descoberto o verdadeiro segredo da Forja.
Talvez ela nunca tenha sido criada para os homens.
Talvez os homens apenas tenham aprendido a repetir um ritual que já existia muito
antes de suas primeiras cidades, muito antes dos Horadrim e muito antes de
Sanctuary conhecer o nome de Omega.
Pois a Forja não cria.
Ela revela.
Revela a força escondida no metal.
Revela a essência adormecida nas runas.
Revela aquilo que existe dentro de cada criatura que ousa se colocar
diante de sua chama.
E talvez, em algum lugar além do véu, dentro de uma prisão esquecida pelo próprio
mundo, Omega ainda consiga ouvir cada golpe do martelo.
Cada espada forjada.
Cada armadura despertada.
Cada essência transformada.
Mas existe algo que os Horadrim jamais compreenderam.
A voz que alguns dizem ouvir dentro das chamas não é a voz do monstro.
Não é a voz do guerreiro que desafiou os Céus e os Infernos.
É uma voz muito mais antiga.
Uma voz que ainda se lembra de ter sido humana.
Uma voz que permaneceu presa à Forja quando o homem se tornou Omega.
E, quando o fogo silencia e o último golpe ecoa pela oficina, essa voz ainda
sussurra as mesmas palavras:
Talvez os Horadrim tenham pensado que era uma advertência.
Talvez fosse apenas uma lembrança.
Ou talvez fosse o último fragmento do homem que Omega um dia foi…
lembrando ao mundo o preço que ele próprio pagou.
“Forje o ferro. Desperte a essência. Pague o preço. Pois aquilo que sai da Forja
nunca é o mesmo que entrou.”
— Último registro de um Horadrim desaparecido